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Escuta e prevenção do suicídio no meio rural

Redes de apoio e espaços de escuta ajudam a identificar sinais de sofrimento

Após expor, na semana passada, o sofrimento silencioso e os impactos do suicídio no meio rural gaúcho, a reportagem do Correio do Povo apresenta agora as iniciativas que têm buscado enfrentar o problema. Programas de saúde, redes de apoio e espaços de escuta ajudam a identificar sinais de sofrimento emocional, ampliar o acolhimento e romper o tabu que ainda dificulta o diálogo sobre saúde mental no campo.

A Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) tem promovido momentos de escuta e debates sobre o tema. Para a secretária-geral da entidade, Jaciara Muller, ainda há pouca abertura para tratar do assunto no meio rural. “As pessoas não falam sobre isso. Elas não se abrem, elas também não têm espaço específico para isso”, afirma. A proposta é estimular o diálogo dentro das comunidades e ampliar a rede de acolhimento, especialmente diante das crises climáticas e financeiras que têm afetado as famílias.

Traumas

Entre as iniciativas voltadas ao cuidado direto com os produtores está o programa Saúde no Campo, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que acompanha propriedades em Santa Cruz do Sul e região. Técnicos de saúde rural e de enfermagem visitam as famílias por até 24 meses e avaliam, além de questões físicas, os impactos emocionais das perdas de safra e outros fatores de sofrimento mental. “Tem toda a questão das enchentes, das secas, do solo que endurece e não é mais permeável e não absorve essa água”, explica a analista de saúde do Senar, Fernanda Kusiak. Após as cheias históricas de 2024, o trauma se tornou frequente.

“Muitas pessoas choram quando começa a chover. A criançada não quer sair na rua quando chove”, relata.

A mesma compreensão é feita por Claudia Weyne Cruz, que atua no Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio da Secretaria de Saúde do RS. Ela pondera ainda não ser possível dimensionar o impacto dessa tragédia climática, mas que ele está presente. “Nas regiões atingidas pelas enchentes, as demandas em saúde mental aumentaram, tanto em termos de ansiedade quanto de sofrimento psíquico. Entendemos que essas questões precisam de resposta e cuidado já na atenção primária”, pondera. Bruno Moraes da Silva, que também integra o comitê, vai na mesma linha.

“É natural e até esperado que a população tenha esse sofrimento pós-tragédia, independentemente do público.”

Existe, inclusive, uma denominação específica para esse tipo de situação, como aponta Claudia: solastalgia. O conceito gira em torno de um sofrimento por estar em um território que, embora a pessoa ainda o ocupe, ele não existe mais da forma anterior. “O lugar não é mais seguro. O rio que não transbordava, de repente leva tudo”, complementa Claudia.

É exatamente por esses fatores, associados às características específicas que tornam os profissionais do campo mais vulneráveis, que conseguir abrangê-los não é uma tarefa simples. Por exemplo, os profissionais do Senar, que vão ao campo, também orientam sobre sinais de alerta, como isolamento, perda de sono, preocupações excessivas, desinteresse pelas atividades, descuido com a aparência, choro frequente e falas sobre morte ou despedida. Esses são sentimentos normalmente ligados ao sofrimento psíquico.

Ao identificar esses aspectos, a recomendação é buscar atendimento especializado. Para quem convive com pessoas que estão passando por situações assim, Fernanda Kusiak sugere incentivar hábitos básicos, como alimentação adequada, descanso e atividade física. A escuta sem julgamentos, segundo ela, é fundamental nesses momentos.

A escuta é um elemento fundamental nas estratégias de acolhimento, como apontam especialistas em saúde mental, e pode trazer reflexos decisivos na preservação da vida. No âmbito da rede pública, há o fortalecimento de estruturas de atendimento e da rede básica. A capacitação dos profissionais nesta ponta também precisa ser sólida, para que possam fazer um acolhimento com escuta ativa sem minimizar a queixa. A escuta é importante como ação de prevenção, mas também para auxiliar após uma tragédia. Isso se deve ao risco do chamado “contágio”.

Fonte: Mauren Xavier, Correio do Povo.

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