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Mulheres rurais: do trabalho à liderança

No Estado, apenas 10% dos sindicatos são presididos por mulheres

Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher e após a Assembleia Geral das Nações Unidas declarar 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora, sob coordenação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cresce o debate sobre o espaço feminino no campo. Mesmo representando parcela significativa da força de trabalho rural, elas ainda ocupam posições reduzidas nas instâncias de decisão e liderança.

No Rio Grande do Sul, apenas 10% dos sindicatos ligados à Federação da Agricultura do Estado (Farsul) são presididos por mulheres, segundo levantamento interno mais recente da entidade, feito em 2023. Entre os sindicatos acompanhados pela entidade, 73% contam com mulheres no quadro diretor, mas elas ainda são minoria nos postos de maior poder. O levantamento também aponta que apenas 19% dos associados são mulheres, embora 65% delas atuem na gestão das próprias propriedades. A expectativa é que, passados três anos da coleta de dados, a representação de agricultoras rurais nesses locais tenha aumentado.

Visibilidade

Para a coordenadora da Comissão das Mulheres do Agro da entidade, Teodora Lütkemeyer, a presença desse público nas atividades agrícolas tem alcançado mais visibilidade com o passar dos anos. “Tem sindicatos com 35% de mulheres associadas enquanto outros têm zero mulheres associadas. Nós temos ainda muitas que não se identificam. Se ela não se identifica, ela permanece na invisibilidade. A gente percebe resistência do público masculino para a criação de comissões de mulheres”, explica a representante que defende a busca por qualificação como um diferencial feminino. Apesar da maioria das trabalhadoras rurais atuar nos níveis mais básicos dentro das organizações, já há representantes assumindo papéis de liderança em suas propriedades e também em organizações políticas, como a presidência e a coordenação de sindicatos e outras entidades de classe.

“É possível afirmar que as posições de liderança são fomentadas pelas mulheres mais jovens e com maior grau de escolaridade. Muitas vezes, por mulheres que têm no núcleo familiar um histórico de envolvimento em organizações com os movimentos sindicais, por exemplo”, explica a professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e especialista em Ensino de Extensão em Agronegócio Rosani Spanevello.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arroio Grande e Jaguarão, Franciele Matos, considera a presença feminina um avanço importante. “É uma conquista coletiva e um compromisso permanente, porque significa ocupar um espaço que, durante muito tempo, foi negado às mulheres. (Significa) transformar essa presença em voz, ação e mudança para quem trabalha e vive da agricultura”, observa a advogada.

Reconhecimento e respeito

As entrevistadas concordam que o principal desafio de mulheres gestoras no meio rural é o mesmo enfrentado em outros ramos: ter sua liderança reconhecida e respeitada. “Querendo ou não, existe aquela constante de ter que provar o máximo de competência para que consigam olhar para mim de forma que eu possa ocupar aquele lugar. Isso acontece muito”, destaca a presidente do Sindicato Rural de São Francisco de Assis, Fernanda Nicola.

A coordenadora de Mulheres e Aposentados da seccional gaúcha da Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag RS), Lérida Pavanelo, é otimista e percebe que a presença feminina em papéis de liderança qualifica o meio rural.

“Com as mulheres ocupando lugares, sendo pilar, referência e tomando iniciativa, muitas propriedades têm se desenvolvido. Não só com as mulheres, mas com a juventude rural”, defende.

Neste contexto, a criação de políticas de promoção para que esses espaços sejam ocupados por mulheres se mostra indispensável. “Hoje eu te digo que a participação das mulheres ainda está lenta mas já está bem melhor, com certeza, porque eu acredito que a gente já tem conquistado mais espaço principalmente dentro dos sindicatos”, afirma Franciele.

A longa caminhada feminina no campo

Trabalho das agricultoras passou muito tempo sem reconhecimento e, apesar de as disparidades terem diminuído, ainda há desconfiança Trabalho das agricultoras passou muito tempo sem reconhecimento e, apesar de as disparidades terem diminuído, ainda há desconfiança | Foto: Eduardo Tavares / CP Memória

Logo que técnicas agrícolas foram desenvolvidas, quem desempenhava as atividades de cuidado com o solo eram as mulheres, manejando as culturas de alimentos nos arredores de casa. Desde então, nunca deixaram o campo. Foi quando a agricultura ganhou aspecto de negócio que o trabalho do público feminino no setor passou a ser invisibilizado. Muitas agricultoras, por exemplo, declaram sua ocupação como “do lar”.

Aqui no Brasil, foi somente com a Constituição Federal de 1988 que esse público passou a ser reconhecido como uma categoria profissional detentora de direitos trabalhistas. A partir daí, foram criadas políticas públicas para garantir remuneração, auxílio-maternidade e aposentadoria, como os demais trabalhadores do setor.

Com o objetivo de valorizar o caráter profissional do trabalho desempenhado por essas mulheres, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. Apesar dos avanços, a realidade relatada é que algumas dessas ações não conseguem alcançar determinadas propriedades, fazendo com que muitas trabalhadoras exerçam sua função sem a valorização adequada.

Na avaliação de Rosani Spanevello, professora da UFSM, a participação feminina no campo não é sempre clara, pois se confunde com trabalho doméstico. “As mulheres têm uma carga extra de trabalho e participação escassa no controle da renda e na tomada de decisões nas propriedades, sendo esses espaços de domínio masculino. Este tem sido, até então, o padrão de participação das mulheres na agricultura e pecuária”, explica a especialista, que pondera que essa representatividade não pode ser avaliada apenas com pesquisas quantitativas, sem levar em consideração as condições em que esse trabalho é exercido.

Na linha de frente dessa mudança, lideranças locais sentem na pele o peso do preconceito. “Infelizmente, acredito que o principal desafio ainda seja vencer a desconfiança dos homens com a nossa capacidade de realizar nosso trabalho. Isso fica mais claro quando uma mulher ocupa um cargo de chefia e tem homens como subordinados na equipe”, desabafa Maria Felícia da Luz Castro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santana do Livramento. Filha de produtores e criada no campo como trabalhadora rural. Mais tarde, passou também a atuar na área sindical.

Qualificação leva sucessoras ao comando do agronegócio

A sucessão no campo gaúcho está deixando de ser uma questão de herança para se tornar um movimento de profissionalização liderado por mulheres. Embora a ausência de herdeiros homens ainda abra portas, é a busca por qualificação técnica e o engajamento sindical que têm transformado filhas de produtores em gestoras e vozes políticas do agronegócio.

Franciele Matos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arroio Grande e Jaguarão, relata que sempre seguiu os passos do pai. “Meu pai não tinha filho homem. Eu que era mais velha. Então, quem fazia tudo junto com meu pai sempre fui eu. Sempre ajudei na lavoura, a tirar o leite.”

A necessidade alçou mulheres a esses espaços.

“Nas gerações passadas, as filhas mulheres dificilmente recebiam terra como herança, sendo essa dada aos filhos homens. Eram escassos os casos em que eram sucessoras. O papel ‘secundário’ das mulheres em relação à gestão da propriedade, sucessão e herança, embora possa estar mais brando, ainda persiste”, revela Rosani Spanevello.

Fernanda Nicola, que é presidente do Sindicato Rural de São Francisco de Assis, vê a educação como um facilitador do acesso das mulheres a ocupar novos espaços no campo. “A gente percebe um crescimento da presença feminina tanto na busca de qualificação no meio rural como também ocupando os espaços mais produtivos, de responsabilidades técnicas, administrativas, participando dos sindicatos, das associações. Esse movimento está refletindo em nós e estamos aparecendo. Agora somos visíveis”, defende a sindicalista.

Presidente do SR de São Francisco de Assis, Fernanda Nicola no manejo da propriedade Presidente do SR de São Francisco de Assis, Fernanda Nicola no manejo da propriedade | Foto: Fernanda Nicola / Arquivo pessoal / CP

Filha de produtores rurais, a representante defende o papel fundamental das mulheres chefes de família em promover o engajamento de jovens no trabalho do campo. “Um dos temas que mais nos afeta realmente é a continuidade no campo, como nós jovens vamos permanecer no campo e realmente fazer a sucessão acontecer na prática, mesmo que não fique no dia a dia, mas faça a administração da propriedade, manter a propriedade. Ter amor por produzir alimentos e defender o setor”, explica Fernanda.

Antes de se tornar presidente da entidade, ela buscou capacitação. Se formou em Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) em Porto Alegre, morou em Minas Gerais, com o objetivo de aprofundar o conhecimento, e voltou para o interior do Estado para aplicar o conhecimento adquirido na Capital em favor dos trabalhadores rurais da região. “A gente dá continuidade a todo esse grande legado que os nossos antepassados tiveram. Isso é a sucessão na prática”, afirma a especialista em Direito do Agronegócio.

No entanto, o protagonismo individual dessas lideranças ainda esbarra em obstáculos estruturais na base do campo. Rosani adverte que as políticas de promoção nem sempre são utilizadas em benefício desse público. “Nossas pesquisas mostram que embora, as mulheres agricultoras tenham acesso a recursos como, por exemplo, linhas de crédito rural, é possível afirmar que, em muitos casos, elas acessam para atender a uma necessidade de uma atividade produtiva conduzida pelo cônjuge e não necessariamente direcionada para uma atividade considerada importante para ela”, afirma a pesquisadora. O desafio atual, portanto, transcende a ocupação de cargos. A meta agora é converter a presença dessas mulheres em autonomia real.

Líderes buscam autonomia e reconhecimento

Apesar dos vários esforços para que as funções das trabalhadoras rurais sejam reconhecidas e valorizados no âmbito profissional, a disparidade persiste. “Mulheres que trabalham no meio rural produzindo alimentos e garantindo a reprodução socioeconômica do seu núcleo familiar, sendo geralmente em áreas menores, menos férteis e com maiores probabilidades de catástrofes naturais, com menos intensificação tecnológica e com menor remuneração comparativamente aos homens”, explica a pesquisadora Rosani Spanevello.

De acordo com ela, a aptidão de mulheres novas com a tecnologia, o uso das redes sociais para o trabalho e a busca por qualificação estão ajudando o público feminino a encontrar espaço. Contudo, pondera que essa mudança está longe de se mostrar suficiente. “As mudanças são lentas. O resultado dessa ‘invisibilidade’ no meio rural reflete nas questões de confiança e empoderamento das mulheres para atuar e se firmar nos espaços representativos”, explica.

Essa barreira de confiança é rompida, muitas vezes, pelo exemplo dentro de casa. Maria Felícia da Luz Castro conta que foi a influência da mãe que a despertou para a atuação sindical. Ou seja, ocupar este espaço pode ser uma forma de dar visibilidade para ela e para outras mulheres que vieram antes, como a mãe.

Maria Felícia da Luz Castro – Presidente do STR de Santana do Livramento Maria Felícia da Luz Castro – Presidente do STR de Santana do Livramento | Foto: Acervo pessoal / CP

Franciele Matos vê na força das organizações de mulheres a chave para uma mudança de realidade. “Os movimentos e grupos de mulheres no campo têm ajudado a transformar a percepção de que o trabalho rural feminino é apenas um complemento não remunerado. Eles reconhecem a contribuição e buscam uma formação para se promover e crescer naquele meio rural”, explica a líder sindical de Arroio Grande e Jaguarão.

Fraciele Matos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arroio Grande e Jaguarão Fraciele Matos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arroio Grande e Jaguarão | Foto: Arquivo pessoal / CP

A convicção é fundamentada por uma experiência pessoal. “Sempre fui muito motivada pela vontade de lutar pelos meus direitos e pelos direitos das pessoas. Eu enxerguei no movimento sindical uma forma concreta de transformar a realidade, defender os nossos ideais e os trabalhadores rurais”, conta Franciele, que se apresenta de forma otimista sobre a ocupação de espaços de liderança por mulheres agora e no futuro.

O sentimento é compartilhado por Fernanda Nicola, que aposta na capacidade de conciliar várias funções, o que ela qualifica como “um diferencial feminino” para trazer mais produtividade ao setor. “A participação feminina tem impactado o setor de uma forma profundamente positiva. Nós, mulheres, temos uma visão mais integrada, de acolhimento. Temos uma capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, conciliando eficiência econômica, sustentabilidade e gestão”, defende.

Para que a contribuição das mulheres receba o devido reconhecimento profissional, é necessário que haja políticas públicas que garantam a autonomia dessas gestoras e promovam uma mudança de cultura no setor.

Fonte: Lúcia Haggström, Correio do Povo.

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